segunda-feira, 2/03/2026

InícioNotíciasDica CulturalMusical em homenagem à Dalva de Oliveira estreia em São Paulo

Musical em homenagem à Dalva de Oliveira estreia em São Paulo

“Minha Estrela Dalva” não é uma biografia, é um encontro impossível. Em cena, o ator e dramaturgo Renato Borghi invade o camarim de sua musa, Dalva de Oliveira, para realizar um sonho que a vida interrompeu: propor a ela um espetáculo revolucionário onde a “Rainha da Voz” cantaria as canções de Bertolt Brecht e Kurt Weill.

Neste “delírio documentado”, passado e presente se fundem sob a direção artística de Elias Andreato e Elcio Nogueira Seixas — que também sobe ao palco para dar vida ao Renato jovem. Borghi, interpretando a si mesmo, dialoga com uma Dalva no auge de sua glória e vulnerabilidade, vivida pela premiada atriz Soraya Ravenle. Ao lado deles, o ator Ivan Vellame dá vida aos amores tempestuosos que marcaram a história da cantora, ampliando o olhar sobre sua trajetória pessoal.

A encenação ganha vida através da direção musical de William Guedes, que conduz a sonoridade afetiva do espetáculo, e da atmosfera visual criada pelo cenário de Márcia Moon, a iluminação de Wagner Pinto e os figurinos de Fábio Namatame. Juntos, eles constroem um universo onde o glamour das Rádios dos anos 50 encontra a crueza do teatro épico de Brecht, revelando a mulher por trás do mito e o fã por trás do ídolo.

Tudo começou com um Renato ainda menino. Aos seis anos de idade, ganhei de minha mãe um disco da trilha sonora de ‘A Branca de Neve’, onde a voz da princesa era interpretada por Dalva de Oliveira. Ali, na vitrola da infância, nasceria uma paixão avassaladora e que atravessaria décadas, palcos e revoluções – culminando no encontro real e improvável entre fã e diva poucos anos antes dela nos deixar”, diz Renato Borghi.

É impulsionado por este amor incondicional, que Borghi revisita o tema para homenagear uma das maiores cantoras brasileiras de todos os tempos. “Minha Estrela Dalva” é, na verdade, o acerto de contas do artista com essa história. Às vésperas de seu aniversário de 89 anos, ele sobe ao palco para reviver o delírio de ter sido amigo, confidente e “filho artístico” de Dalva de Oliveira.

Em 2026, essa memória ganha novo corpo e voz no palco através de um encontro de gigantes. Soraya Ravenle, que iniciou sua brilhante carreira no teatro musical integrando o coro de “A Estrela Dalva” (1987), grande sucesso de Borghi com Marília Pêra, retorna agora para ocupar o centro do palco e encarnar a própria Estrela. Com sua potência vocal e sensibilidade rara, ela não interpreta apenas a “Rainha do Rádio”, mas a força da natureza que cantou a dor rasgada antes disso virar moda, a mulher que desafiou os moralismos de sua época com o peito aberto e a garganta em chamas. Soraya traz à cena o mito humano, o “Rouxinol do Brasil” que ensinou a um país inteiro que o sofrimento, quando cantado, vira beleza.

Dalva é a quarta mulher que transforma a minha vida. Não volto a ela apenas como intérprete, volto como alguém atravessada por sua coragem. Em cena, eu não a interpreto, eu a convoco, canto a mulher que desafiou seu tempo com o peito aberto e transformou dor em beleza. E estar ao lado de Renato Borghi é viver um encontro de amor e memória, ele escreve para sua musa e eu tenho a honra de dar corpo e voz a essa história diante do público”, comenta Ravenle.

Em um jogo cênico vertiginoso, Renato Borghi divide a cena com sua própria juventude. Elcio Nogueira Seixas, que além de dirigir o espetáculo, interpreta o Renato de 1969 – um jovem ator da contracultura que, entre a rebeldia do Teatro Oficina e o glamour do rádio, descobre em Dalva a alma do Brasil.

Desde o início dos anos 90, divido e multiplico a cena do mundo com Renato. Fui seu aluno e tornei-me seu parceiro na arte. Dalva entrou em mim como entrou nele — pela voz, pelo espanto, pelo chamamento. Só que o meu bolachão de 78 rotações foi o próprio Borghi. Hoje dirijo Minha Estrela Dalva ao lado de meu amado amigo e mestre Elias Andreato — que foi quem me aproximou do Renato. E no palco, sou ele jovem — o menino de sete anos que ouviu aquela voz pela primeira vez e nunca mais foi o mesmo. Neste espetáculo, sigo a receita antropófaga de Oswald de Andrade e faço a devoração de Renato e Dalva”, diz Elcio Nogueira Seixas.

Completando esse triângulo de paixões, Ivan Vellame empresta sua voz de rara beleza para dar vida aos amores de Dalva, com destaque para o compositor Herivelto Martins, trazendo ao palco os sambas imortais e os conflitos públicos e midiáticos que marcaram a era de ouro do rádio.

“A Dalva que Renato nos traz é uma convocação para adentrarmos a vida de uma mulher que viveu de alma nua, vocacionada para o Amor e para a Arte. Eu entro representando uns cabras que estranhavam o Amor. Construindo com a direção chegamos à uma encenação não documental, onírica e mítica, mas que não perde o valor de reflexão de que esses homens, os estranhos ao Amor mas que amavam muito – Bruno, Herivelto e Kiko – viam o feminino como sinônimo de desqualificação do masculino. Eu espero que, principalmente os homens, saiam do teatro mais amorosos, menos machões. Se eu for vaiado em cena, por perceberem que homens assim já não tão com nada há muito tempo, vai ser lindo. Eu espero que: – Homens, honremos a feminilidade que nos é intrínseca”, enfatiza Vellame.

A direção do espetáculo é dividida com o renomado Elias Andreato. O ator e diretor empresta toda sua sensibilidade e experiência para extrair o melhor de cada ator e dar forma ao texto poético escrito por Borghi.

“Em Minha Estrela Dalva, Renato Borghi escreve uma declaração de amor à sua musa eterna, Dalva de Oliveira. Ao lado de Elcio Nogueira Seixas, construímos um espetáculo que é memória, música e exposição profunda. Soraya Ravenle não interpreta Dalva, ela a faz pulsar, e ver Renato se confrontar com sua própria história em cena é testemunhar um dos gestos mais íntimos e corajosos do teatro”, destaca Andreato.

“Minha Estrela Dalva” acontece a partir de 28 de março, no Teatro do Sesi (Avenida Paulista, 1313), de quinta a domingo. Os ingressos estarão disponíveis em breve pelo site www.sesisp.org.br/eventos.

 

Dalva de Oliveira e o empoderamento feminino

Em “Minha Estrela Dalva”, cada homem que passou pela vida de Dalva de Oliveira exerceu sobre ela uma variação do mesmo poder: o poder de definir quem ela era, quanto valia e quando deveria desaparecer. Herivelto, o marido compositor, dizia “Fui eu que te fiz, sua caipira” — e cobrava a dívida como se o talento dela fosse propriedade dele. Kiko, o segundo marido, queria transformá-la numa diva europeia bem-comportada. Bruno roubou seu dinheiro e fugiu. A televisão acendeu um canhão de luz no seu rosto e disse que não havia como fazer um close naquela mulher envelhecida.

A resposta de Dalva, que atravessa a peça como um refrão, é uma só: “Eu não tenho dono.”

Chamaram-na de Messalina, de indigna de ser mãe, de cafona, de acabada. Pelos jornais dos anos 1950, Dalva foi submetida ao mesmo linchamento público que as redes sociais aplicam hoje a qualquer mulher que ousa viver fora do roteiro. A tecnologia mudou. A lógica, não.

Mas Dalva transformou cada golpe em canção. Quando o ex-marido a difamou, ela gravou “Errei sim” e devolveu: “Que venha logo a primeira pedra me atirar.” Quando quiseram enterrá-la, cantou “Bandeira Branca” no Maracanã e o público se ajoelhou. “Se meu coração está machucado, deixo sangrar — eu canto melhor assim, de peito aberto.”

Renato Borghi, que a amou desde os seis anos de idade, escreveu esta peça não para embalsamá-la em nostalgia, mas para devolvê-la ao palco viva, contraditória e indomável — uma mulher que bebe demais, que mostra as pernas, que faz reza forte contra os ex-companheiros, que briga com o diretor e reescreve as próprias cenas. Borghi tem a sabedoria de não idealizá-la, porque o que torna Dalva uma figura poderosa para as mulheres de hoje não é a perfeição — é a inteireza.

No clímax do espetáculo, Dalva canta “Jenny dos Piratas”, de Brecht e Kurt Weill: a história da mulher humilhada que um dia será a única de pé quando tudo ruir. É a convergência exata entre a emoção visceral da maior cantora popular brasileira e o teatro político. Quando lhe perguntam quem deve morrer, Jenny responde: “Todos.” É a fantasia de justiça de todas as mulheres que foram esmagadas e se recusaram a ficar no chão.

Dalva enfrentou o machismo dos anos 1940 aos 70 sem vocabulário feminista, sem rede de apoio, sem hashtag — com nada além da voz e de uma teimosia feroz de não se deixar apagar. Que sua história ressoe com tanta força em 2026 não é um tributo ao passado. É um diagnóstico do presente.

 

SERVIÇO

“Minha Estrela Dalva”

Temporada: de 28/03 a 12/07

Centro Cultural Fiesp | Teatro do SESI-SP – Avenida Paulista, 1313 (em frente à estação Trianon-Masp)

Sessões:

Quinta a sábado, às 20h, e domingo, às 19h

Classificação etária: 14 anos

Duração: 90 minutos

Acessibilidade sempre aos sábados e domingos, com intérprete de Libras e audiodescrição.

Os ingressos estarão disponíveis em breve pelo site www.sesisp.org.br/eventos.

ARTIGOS RELACIONADOS

Deixe um Comentário

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

ANÚNCIO

Veja Também

Comentários Recentes